Publicado em 16/08/19 às 11h37

Ponto de vista

Como intensivista que se orgulha da sua especialidade e que se esforça para exercê-la zelosa e dignamente, foi com absoluta incredulidade que li um documento que me chegou às mãos e emitido pela Comissão de Ética Médica da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, intitulado “Recomendações sobre a relação entre os médicos assistentes e os médicos intensivistas no âmbito da Santa Casa de Porto Alegre”. Essa resolução, embasada em considerações aparentemente coerentes com os preceitos éticos emitidos pelos conselhos de classe médica e que regem os relacionamentos entre pacientes e seus médicos assistentes, particularmente naquelas situações para as quais podem existir percepções distintas e mesmo conflitantes no que diz respeito às condutas mais adequadas a serem tomadas, como é o caso do paciente grave e agudamente enfermo, finda, nas suas conclusões, por manifestar uma visão anacrônica e distorcida em relação ao papel dos médicos intensivistas e da especialidade complexa em que se transformou a Medicina Intensiva.

Em um dos itens de conclusão, o documento discorre que "O papel do médico intensivista é essencialmente vinculado a situações de urgência e emergência. Advém, assim, um caráter de momentâneo protagonismo do médico da UTI, pois são responsáveis pelo atendimento às situações de urgência e emergência, na ausência do médico assistente..." 

Dois equívocos em uma mesma sentença. Primeiramente, porque não se trata de uma disputa por protagonismo, visto que tal prerrogativa pertence única e integralmente ao paciente e seus interesses. O próprio código de ética médica, tão exaustivamente citado no documento, estabelece essa premissa como pedra angular de toda e qualquer atividade médica. O segundo erro é tentar vincular e condensar a atuação de uma especialidade complexa e multifacetada como a Medicina Intensiva exclusivamente ao atendimento de "urgências e emergências". 

Esse âmbito da atuação também faz parte do ofício do intensivista e é característica fundamental da atividade, mas de nenhuma forma a resume. O que a signatária do documento desconhece é que, na esmagadora maioria das patologias que acometem os pacientes de UTI, nenhum especialista, por mais competente e erudito que seja, pode atuar com mais perícia e eficiência do que um intensivista bem formado, mesmo em situações não urgentes e não emergenciais. 

O fato é que essa recomendação equivocada pode ser explicada, infelizmente, mas não justificada, pelo desconhecimento do que se tornou a Medicina Intensiva e do nível de excelência que as UTI e os intensivistas brasileiros atingiram. 

Independentemente dos motivos, a AMIB não pode contemplar um tal desrespeito à especialidade sem tomar as medidas cabíveis. Ato contínuo, encaminharemos ofício ao Conselho Federal de Medicina solicitando que se manifeste a respeito dessa e de outras situações relacionadas.

É preciso ressaltar, finalmente, que ao partir em defesa da autonomia do intensivista, em nenhum momento se defende a intransigência e o desrespeito às opiniões e recomendações de qualquer profissional envolvido com o cuidado ao paciente, inclusive de outros especialistas. É fundamental que uma relação de confiança seja construída e sedimentada, bem como exige-se do intensivista (assim como dos seus interlocutores) que tenha a sensibilidade e o discernimento necessários para contornar eventuais conflitos de forma racional, equilibrada e sempre norteado para atingir o que realmente interessa: o bem estar do paciente.

Dr. Ciro Leite Mendes
Presidente da AMIB

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